Conforme consta no Novo
Testamento, as primeiras palavras de Jesus Cristo, quando começou a ensinar,
foram: “O tempo está cumprido, e o Reino
de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos
1:14-15).
Essas poucas
palavras, aparentemente simples, contêm uma profunda sabedoria espiritual que
podem escapar à compreensão de alguns desatentos.
Ao dizer que “o
Reino de Deus está próximo”, Jesus não se referiu a um conceito distante no
tempo ou no espaço, mas sim a algo íntimo e imediato, presente dentro de cada
um de nós. Ele ensinava as pessoas a experimentarem esse Reino aqui e agora, no
momento presente.
O termo
“arrependimento”, utilizado discretamente por Jesus, fazia parte do rudimento
de sua doutrina provisória, conforme está descrito na Epístola aos Hebreus
6:1-2. Apenas para facilitar a aceitação de sua boa nova, oposta ao que João
Batista e os fariseus pregavam.
Inicialmente, o que
Jesus ensinava parecia semelhante às crenças religiosas, devido aos rudimentos
antigos utilizados como estratégia psicológica, para conquistar a confiança dos
leigos.
Segundo o dicionário, alguns dos principais sinônimos da palavra “próximo” são: rente (unido, ligado), junto, perto, imediato, íntimo. Portanto, segundo as palavras de Jesus exemplificadas antes: “O Reino de Deus está próximo” (perto, íntimo), ou aqui e agora (dentro de nós), e não no passado nem no futuro. O tempo, o futuro se cumpriram na realidade, agora.
Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós. (Lucas 17:21), (ARA – 1993 – Almeida Revisada e Atualizada)
Jesus não pregava a
dualidade (passado e futuro), a promessa de “salvação” no futuro como as
religiões de sua época. Porém, o tempo
cumprido, ou realizado agora e não depois.
O tempo está
cumprido. Ou seja, a promessa das religiões moralistas, de “salvação”
(reconexão) no futuro, não é mais necessária, se cumpriu agora, através de um
ser humano real, de carne e osso. Nesse caso, Jesus Cristo. Me refiro ao
despertar e lucidez espiritual naquela época experimentada por Jesus Nazareno (humano).
Enquanto isso, João
Batista, quando começou a ensinar, utilizou palavras como: “ira futura” (Mateus
3:7-9), e promessa de salvação depois, no futuro. Ou seja: “vem após mim”,
conforme consta em Marcos 1:7-8.
Está evidente que o
ensinamento de João Batista era uma doutrina moralista e escatológica
(dualista), baseada na ira de “Deus”.
A proposta da “nova”
doutrina de João Batista era trocar a velha doutrina religiosa, moralista e
falida dos fariseus, a qual deu frutos destrutivos, ao contrário do que era
esperado e prometido, por outra supostamente nova, melhor e mais eficaz,
segundo o entendimento dele.
Por exemplo, as pessoas não deveriam
mais se considerar filhas de Abraão, através da fé cega em um indivíduo
“iluminado” do passado (culto ao gênio distante). Desta vez, deveriam aceitar
uma promessa de “salvação”, baseada no futuro e não mais baseada no passado,
conforme era a fé em Abraão. Era mais uma crença religiosa presa no outro
extremo da mente dualista condicionada (passado e futuro). Devaneio.
Posteriormente estas duas crenças foram mescladas. Ou seja: “Só o Jesus histórico salva” (não mais Abraão), e “o Jesus histórico voltará um dia para nos salvar”. Sempre negligenciando a importância do momento presente, o agora eterno, porque não conseguem se considerar também dignos de ser filhos de Deus, ou da Vida eterna (Atos 13:44-46), como a crença religiosa dos fariseus.
Buscam sempre algo fora de si mesmos e distante, como se o corpo físico que veio do pó pudesse ser “salvo”.
Todos nós podemos aprender mentalmente a mudar de marcha. Em vez de lutar pela perfeição como um objeto distante, podemos aprender a começar com a criação espiritual de Deus e reconhecer que já somos ideias perfeitas dEle. Esse modo revolucionário de pensar pode fazer maravilhas em nossa vida. (Helen B. Childs)
Helen B. Childs
propôs uma mudança de foco, onde não há necessidade de luta nem esforço para
atingir a suposta “perfeição” (reconexão espiritual), ao utilizar a expressão: “mentalmente
mudar de marcha”. E com a expressão “criação espiritual”, foi sugerido que
devemos reconhecer que já somos eternos.
Basta apenas mudar
nosso foco de visão. Ou seja, não precisamos de doutrinas para alcançar que a
nossa Vida real interior já é essencialmente eterna e perfeita, aqui e agora.
A “mudança de marcha” pelo mental (mentalmente) trata-se de um processo, que vai da tomada de consciência intelectual (teoria) para a prática e experiência direta, quando constatamos quem nós realmente somos espiritualmente, além da mente condicionada ou pensamentos abstratos.
Por detrás dos teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um senhor mais poderoso, um guia desconhecido. Chama-se “eu sou”. (Nietzsche)
Na verdade, uma
religião antiga (uma voz, uma teoria intelectual) que aponta o “caminho” e se
baseia em rituais, como o batismo com água (matéria), trata-se de uma iniciação
espiritual provisória (João 5:35).
Depois de tal
iniciação é que acontece algo mais significativo, caso não
estacionemos na iniciação, após transcendermos o apego à religião.
Eu não tenho nada
contra, nem a favor ao batismo com água de João Batista, inclusive fui também
batizado na minha adolescência. Trata-se de uma
iniciação espiritual primitiva, necessária a determinado estado de consciência
coletiva.
Mesmo sendo algo inicial e primário, há o acompanhamento de certas entidades espirituais durante o ritual do batismo com água, porque a Vida universal a ninguém julga (João 5:22). Ou seja, tal ritual tem certo amparo e auxílio espiritual, devido a sua função como iniciação espiritual.
Quanto à doutrina escatológica, qualquer uma, não só a de João Batista, sempre se baseia no futuro imaginário da mente e na ira de “Deus”, e não na realidade do agora eterno, nem no Amor que a ninguém julga, que é a nossa própria Eternidade (multidimensionalidade).
Um
Deus que ama a humanidade na condição de que acreditem nele, que lança olhares
terríveis, ameaças contra quem não acredita nesse amor? Como? Um amor sob
condições é o sentimento de um Deus todo-poderoso? Um amor que não conseguiu
vencer o senso de honra, nem a sede de vingança? (Nietzsche)
