As pessoas na época de Jesus, apesar de serem religiosas, não se sentiam dignas da Vida eterna.
Em certo sábado, ajuntou-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus. Então os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava. Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que rejeitam, e não se julgam dignos da vida eterna, nos voltamos para os gentios. (Atos 13:44-46)
Havia discordância e inveja
dos religiosos, porque os discípulos de Cristo estavam ensinando algo diferente
e conquistando as pessoas, principalmente os gentios.
Elas tinham ódio de quem
pensava de maneira diferente, porque acreditavam que já sabiam tudo. Trata-se
de um sintoma padrão da mente humana condicionada, que não tem humildade para
ouvir e aprender algo novo, mais abrangente e mais profundo.
Uma pessoa pode saber muito
sobre determinado assunto e ser de fato mais esclarecida, porém a outra não
está disposta a ouvi-la, a não ser que se utilize de seu mesmo vocabulário e
tenha a sua mesma crença (paradigma).
Segundo os versículos
exemplificados, em certo sábado quase toda a cidade se juntou para ouvir os
discípulos Paulo e Barnabé. Porém, era quase toda a cidade, e não
exatamente toda a cidade.
No entanto, curiosamente,
no caso de João Batista, apesar de sua doutrina moralista ser mais
rígida que a doutrina dos fariseus, ia ter com ele Jerusalém, toda a Judeia, e
toda a província adjacente ao Jordão (Mateus 3:5-7), porque a sua linguagem era
familiar.
Esse fenômeno psicológico interessante, que escapa aos olhos de muitos ilustres pesquisadores, é digno de atenção e investigação imparcial (científica).
Havia diferenças radicais
entre o ensinamento de João
Batista e o de Jesus. Por isso, João Batista
atraia uma maior multidão. Ele ensinava algo que a maioria já conhecia. A única
“novidade” foi que ele adaptou algumas mudanças, como o ritual do batismo com água.
A sua religião era uma ramificação do judaísmo.
Os discípulos Paulo e Barnabé,
gentilmente e de boa vontade, pretendiam ensinar primeiramente aos religiosos
de sua época, que deveriam ser as pessoas mais adequadas para compreender e
assimilar a verdade sobre a realidade da nossa Vida eterna, afinal, eles eram
estudiosos da Bíblia desde a infância. Porém, o conteúdo era diferente da visão
deles, portanto, não podiam aceitar a novidade. Tinham os corações endurecidos
pela doutrina velha. Acreditavam que já sabiam o suficiente.
Se os discípulos de Jesus
estivessem divulgando o mesmo que os religiosos ensinavam, não iam contradizer
ou discordar, porque os discípulos estariam falando a mesma linguagem deles.
Não haveria nenhuma contradição nem resistência. Já com os gentios, o diálogo
era mais fácil, porque estavam mais dispostos a ouvir algo novo e diferente,
porque não tinham comprometimento religioso.
A melhor alternativa era
utilizar uma estratégia psicológica, através de graus de iniciação, para
amenizar a ignorância e a resistência, como Jesus havia feito através dos
rudimentos de sua doutrina inicial e provisória (Hebreus 6:1-2).
Apesar de não se considerarem dignos da Vida eterna, conforme está escrito, insistiam que conheciam a verdade e tentavam, de toda forma, converter os discípulos de Cristo, na doutrina antiga de servidão. E, infelizmente, conseguiram “converter” muitos discípulos.
A maioria das pessoas
não acha desprezível acreditar nisto ou
naquilo e agir de acordo sem ter pesado o pró e o contra, sem ter
consciência profunda das suas supremas razões de agir, sem mesmo de ter
incomodado a inquirir essas
razões; os homens mais dotados e as mulheres mais nobres também fazem parte desse grande número.
(Nietzsche)
