O leitor já ouviu alguém falar sobre o mistério “Cristo em vós”? O mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações, conforme as palavras do apóstolo Paulo?
A expressão “Cristo em vós” se refere algo muito íntimo, algo que está dentro de nós e que geralmente não percebemos porque não sabemos e quando não nos consideramos dignos.
A questão é: como descobrir o
Cristo dentro de nós?
Vejamos como o místico Joel S.
Goldsmith abordou essa questão de forma sábia e precisa em um de seus livros:
Disse Jesus: “Não está escrito na vossa lei... Vós sois deuses?” (João 10:34). Sempre o Mestre tentou alçar a consciência pessoal do homem ao nível que permitisse a este o reconhecimento da própria e verdadeira identidade.
Agora vejamos a abordagem do
apóstolo Paulo sobre esta mesma verdade espiritual, que muitos leem e não
compreendem:
O mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações e que, agora, foi manifesto aos seus santos; aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória; a quem anunciamos, admoestando a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo homem perfeito em Jesus Cristo. (Colossenses 1:26-28)
Na realidade, os únicos cristãos
que conseguiram compreender um pouco o significado destas palavras profundas do
apóstolo Paulo, “Cristo em você”, foram os cristãos do deserto e,
posteriormente, os padres do deserto, autores do livro Filocalia, o qual
provavelmente também deve ter sido adulterado.
Para estudarmos esta verdade
espiritual fundamental, antes é preciso compreender que o Espírito de Cristo
(Consciência Crística) não é um indivíduo (corpo-mente) que viveu há mais
de 2.000 anos (II Coríntios 3:17).
O termo “Jesus Cristo”, citado
nos versículos exemplificados, trata-se de um homem chamado Jesus Nazareno, que
obteve o despertar da consciência espiritual, não por acaso, como interpretam.
Por isso, Jesus é também o Cristo, mesmo tendo sido um ser humano de carne e
osso como eu e você (I João 4:1-4).
Portanto, se ainda acredita que
só Jesus foi digno de ser Filho de Deus e você não, então você está “distante”
de compreender e vivenciar a sua verdadeira identidade espiritual interior,
mesmo que acredite que já conhece o suficiente.
Tal mistério esteve oculto
durante séculos devido à ignorância da humanidade da Idade Antiga, o qual foi
resgatado e ensinado por Jesus. Ele buscou a verdade durante vários anos, com
dedicação, desde a sua infância, ouvindo e questionando os doutores da lei
(“donos” da verdade), entre outras religiões de sua época.
Conforme consta, Deus sempre quis
revelar tal riqueza espiritual, principalmente entre os gentios (ateus). Eis o
privilégio dos gentios.
O mistério que estava oculto
significa “Cristo em nós, a esperança da Glória” que se revela através do ser
humano frágil e mortal.
O apóstolo Paulo também ensinou
às pessoas, em sua época, sobre este mistério, para que dessa forma o ser
humano despertasse para a sua perfeição espiritual interior. Nossa verdadeira identidade divina.
Não esquecendo que Cristo é
Espírito (consciência espiritual) (II Coríntios 3:17) e não a aparência humana
de Jesus Nazareno, ao qual muitos se apegaram, assim como os religiosos
moralistas do passado haviam se apegado a Abraão e a Moisés.
Tal apego significa “culto ao
gênio distante” (complexo de inferioridade) e, também, idolatria.
Ora,
o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. (II
Coríntios 3:17)
Daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora, já o não conhecemos desse modo. (II Coríntios 5:16)
Há uma tendência natural das
pessoas se apegarem aos gênios do passado por não se considerarem também dignas e
capazes. Por exemplo, eu conheci uma pessoa que utilizou esta expressão: “tais
pessoas foram gênios, mas nós somos apenas reles mortais”.
Muitos acreditam realmente em tal mentalidade pessimista, como se os gênios do passado não fossem humanos e mortais como nós. Não conseguem se considerar também dignos do melhor, senão do pior. É como disse o filósofo Nietzsche:
Só quando é pensado como algo distante de nós, como um miraculum, o gênio não fere (mesmo Goethe, o homem sem inveja), chamava Shakespeare de sua estrela mais longínqua.
Este mistério denominado “Cristo
em nós” se refere ao despertar de nossa consciência espiritual, aqui e agora.
Ter uma religião não significa
uma garantia de encontrar ou experimentar tal verdade eterna, pois, conforme
consta em tais versículos, até um gentio (excluído pelas religiões moralistas)
pode despertar para a verdade interior, Cristo em nós.
Na verdade, a “preparação do
caminho do Senhor” (linguagem bíblica), através das religiões moralistas
(dualistas), baseadas no esforço e na sabedoria limitada humana (doutrinas
rígidas), significa apenas preparativo para alcançar “algo”, quando mudamos de
estágio de iniciação espiritual e vamos além de tais doutrinas.
Depende de cada indivíduo ir além
do labirinto das religiões moralistas: Verdade e mentira ao mesmo tempo (bem e
mal). Neste caso, esse algo é o despertar da Consciência Crística, conhecer a
Si mesmo, o Ser (Eu Sou).
Vós
sois deuses, e vós outros sois todos filhos do Altíssimo.
Todavia, como homens morrereis e caireis como qualquer dos príncipes. (Salmos 82:6-7)
Eu sei que outros interpretam
estes dois versículos sequenciais da maneira que acham melhor, segundo as suas
conveniências. Porém, eles são bastante claros. Somos seres espirituais,
contudo, enquanto corpos físicos, somos frágeis e mortais.
Não é difícil perceber como a crença dos religiosos da época de Jesus era materialista, semelhante à crença religiosa que o mundo herdou. Bem distante do que Jesus havia ensinado.
Na verdade, somos todos seres
espirituais, imortais, porém, enquanto homens (corpos físicos), morremos. Ou
seja, apenas o corpo físico morre, volta a sua origem, que é o pó da terra.
Contudo, o nosso Espírito é eterno, co-herdeiro com Cristo de todas as riquezas
celestiais.
Enquanto ainda acreditarem que
somente Jesus Nazareno foi digno de ser Filho de Deus (Vida eterna, Amor), não
é possível assimilar e experimentar verdadeiramente este mistério denominado
“Cristo em nós”. Embora qualquer experiência religiosa seja válida,
principalmente quando priorizamos a verdade espiritual e vamos além dos
equívocos herdados.
Cada
pessoa tem o seu dia bom, em que descobre o seu eu superior; e a verdadeira
humanidade exige que alguém seja avaliado conforme esse estado, e não conforme
seus “dias de semana” de cativeiro e sujeição. Deve-se, por exemplo, julgar e
reverenciar um pintor segundo a visão mais elevada que ele pôde ver e
representar. (Nietzsche)
